© 2019 por AntBuzz - Porque somos humanos

  • Ícone do Twitter Branco
  • Branca Ícone LinkedIn
  • Laura Gris

Um passe de mágica digital


A saga do bruxo chega ao fim com tudo que estava previsto: morte do vilão, vitória do herói e – claro – pirataria na internet

por Luís Antônio Giron, na Época Online


Aconteceu o previsível: o tão protegido e esperado final da saga de Harry Potter vazou por causa de um feitiço talvez mais poderoso que os ensinados pelos magos Dumbledore e Snape juntos: a internet. O passe de mágica atende pelo nome “BitTorrent”. Trata-se de um popular programa de troca e compartilhamento de arquivos. Nele e em sites semelhantes, circularam na noite da segunda-feira 15 fotografias de 784 páginas da edição americana.

Em algumas imagens, via-se a unha pintada de rosa de um polegar. Em poucos minutos, os desmancha-prazeres enchiam a blogosfera com respostas falsas e verdadeiras aos derradeiros mistérios sobre Harry em sua luta contra as trevas. Ambas as editoras não negaram nem confirmaram a veracidade da cópia, divulgada em primeira mão pelo site de ÉPOCA antes mesmo que jornais como o americano New York Times tivessem se dado conta. A Bloomsbury e a Scholastic anunciaram medidas legais contra os violadores dos direitos autorais. Ninguém sabe ainda quem é o autor das fotografias.

A tiragem inicial de cerca de 20 milhões de exemplares – 2 milhões encomendados, tornando Deathly Hallows o maior best-seller do ano por antecipação – foi enviada para livrarias de todo o mundo, com o compromisso de abrir no horário combinado. Uma distribuidora americanas, Levy Home Entertainment, entregou centenas de exemplares encomendados. Um dos usuários deve ter fotografado o volume às pressas. Da câmera para a internet, passaram-se minutos.

É pouco provável que a versão do BitTorrent seja forjada. Ao longo da narrativa, Harry empreende a Guerra de Hogwarts contra os Comensais da Morte, encabeçados pelo vilão Voldemort e, à medida que se desenrola a ação, todos os segredos são desvendados. Num duelo com Voldemort, o protagonista se vê à beira da morte. Então se descortina a surpresa final, prometida por J.K. Rowling. Como seria previsível na estrutura de um romance clássico, seguida por ela.

Caso você queira evitar conhecer segredos antes de terminar o livro, salte este parágrafo. Eram quatro os enigmas que vinham sendo lançados aos leitores desde o início da série. Harry Potter consegue vencer o Lorde das Trevas Voldemort? Que personagens morreriam no último volume? De que lado estaria o professor Snape: seria um membro dos Comensais da Morte ou amigo dos bruxos do bem? E o destino de Ron e Hermione, amigos de Harry?

Eis as respostas. Na batalha, Harry conta com a ajuda de magos mais poderosos, que matam Voldemort. Antes, porém, o Lorde das Trevas aniquila Snape, que, na verdade, era um espião infiltrado, a serviço do bruxo do bem, Dumbledore. No epílogo, 19 anos depois, Harry está com 37 anos, casado com a colega Gina e tem três filhos: James, Albus Severus (nome que homenageia Albus Dumbledore e Severus Snape) e Lily. James estuda na escola de bruxaria de Hogwarts. A família está na estação de King’s Cross, para se despedir de Albus, que tomará o trem rumo a Hogwarts. Topa, então, com Hermione e Ron, casados e pais da menina Rose, que também vai embarcar. A cicatriz que Harry traz na testa desde bebê não dói mais.

Os finais de livro são importantes, mas não essenciais. A saga pode ser lida como uma alegoria da formação da escritora. E de outras infinitas maneiras. A série de J.K. Rowling ficará na literatura infantil e de fantasia. E sua publicação traz outra lição, utilíssima nos dias de hoje: é impraticável manter o sigilo de um livro com milhões de cópias depois que os textos migraram do papel para o mundo digital. Em vez de processar os responsáveis pela violação de direitos, as editoras da obra poderiam ter pensado em um uso mais inteligente da internet. É assim que o cinema opera hoje. Filmes como Star Wars ou Homem-Aranha não guardam mistérios de trama, e sim sobre a forma como ela é narrada. Talvez esse projeto de sigilo tenha ruído pela própria concepção mercadológica de Harry. A série é um produto do século XX. Mesmo as crianças que se iniciaram na leitura com os livros cresceram e agora têm acesso à tecnologia. Hoje não há mais “trouxas” (muggles, desprovidos de dotes mágicos). Os “trouxas” de hoje possuem superpoderes digitais de fazer inveja aos antigos meninos de Hogwarts.

0 visualização