• Laura Gris

Resoluções e revoluções

Do Blog Chéri à Paris

Os dois estavam na cama. Ele abaixou o cacho de uvas, para que ela pudesse alcançá-lo. Com a boca meio cheia, foi ela quem começou o diálogo.

– Paul, tomei uma resolução de ano novo. – Já sei, Virginie. Fazer regime. – Não, essa foi a do ano passado, chéri. – Então vai terminar de pintar aquele quadro que você começou há séculos. – Também não. Essa tinha sido a de dois anos atrás. – E não cumpriu nenhuma das duas, né? – Eu sei, eu sei. Mas dessa vez é pra valer. – Vai juntar dinheiro pra uma viagem pra América do Sul? – Não. – E o que é? – Vou trocar de marido. – Cuméquié? Endoideceu? – Decidi arrumar um outro homem. – Um amante? – Não, não. Apenas trocar você por outro. – Mas… tem algo de errado comigo? – Nada. – Tô feio? Barrigudo? – Você continua um gatão selvagem. Faz miau. – Miau. – Viu? O mesmo de sempre. – Mas o que é, então? A gente se dá mal? – Não, Paul. Você sabe que a gente se entende perfeitamente. Você até chorou assistindo Titanic comigo. Coisa mais linda. – É meu ronco? É isso? – Nada a ver. Eu gosto do seu ronco. Me faz sonhar que tô na selva. – Então é por causa daquela minha cueca furada. – A cueca furada te dá um charme especial, meio rústico. – E é o quê, então? – Não é nada. Só achei que precisava de uma troca na minha vida. – E por que não foi aprender a trocar pneu de carro? – Não dá pra exagerar, né? Trocar de marido é mais fácil. – Mas, Virginie, de onde veio essa idéia? Ficou maluca? – Foi a Marie que começou tudo, ano passado. Tava meio entediada e trocou o marido por um garotão 10 anos mais novo. Hoje está ó-ti-ma, super feliz, com pele e unhas lindas. – E aí você resolveu embarcar nessa… – Não só eu, mas todas as nossas amigas. Sabe, Paul, acho que você também está precisando de tomar resoluções arrojadas. Vão te fazer bem. – Olha, acho que você tem razão, Virginie. – Claro que tenho. Você vai ver como vai se sentir mais leve. – Pois é. E acabei de decidir qual será minha resolução de ano novo. – E qual é? – Vou trocar hoje mesmo a senha do cartão de crédito. – Do nosso cartão de crédito ilimitado? – Do meu, você quer dizer. – Credo, Paul. Por que você é sempre assim tão radical?

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