• Laura Gris

Se

Se podes conservar o teu bom senso e a calma No mundo a delirar para quem o louco és tu… Se podes crer em ti com toda a força de alma Quando ninguém te crê…Se vais faminto e nu,

Trilhando sem revolta um rumo solitário… Se à torva intolerância, à negra incompreensão, Tu podes responder subindo o teu calvário Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão…

Se podes dizer bem de quem te calunia… Se dás ternura em troca aos que te dão rancor (Mas sem a afectação de um santo que oficia Nem pretensões de sábio a dar lições de amor)…

Se podes esperar sem fatigar a esperança… Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho… Fazer do pensamento um arco de aliança, Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho…

Se podes encarar com indiferença igual O triunfo e a derrota, eternos impostores… Se podes ver o bem oculto em todo o mal E resignar sorrindo o amor dos teus amores…

Se podes resistir à raiva e à vergonha De ver envenenar as frases que disseste E que um velhaco emprega eivadas de peçonha Com falsas intenções que tu jamais lhes deste…

Se podes ver por terra as obras que fizeste, Vaiadas por malsins, desorientando o povo, E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste, Voltares ao princípio a construir de novo…

Se puderes obrigar o coração e os músculos A renovar um esforço há muito vacilante, Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos, Só exista a vontade a comandar avante…

Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre… Se vivendo entre os reis, conservas a humildade… Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre São iguais para ti à luz da eternidade…

Se quem conta contigo encontra mais que a conta… Se podes empregar os sessenta segundos Do minuto que passa em obra de tal monta Que o minute se espraie em séculos fecundos…

Então, á ser sublime, o mundo inteiro é teu! Já dominaste os reis, os tempos, os espaços!… Mas, ainda para além, um novo sol rompeu, Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.

Pairando numa esfera acima deste plano, Sem receares jamais que os erros te retomem, Quando já nada houver em ti que seja humano, Alegra-te, meu filho, então serás um homem!…

de Rudyard Kiplig, tradução de Féliz Bermudes

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